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A batida multicultural de Gilson Silveira Print E-mail
Música é ingrediente parafusão de culturas desde que não se abuse dos esteriótipos. O percussionistabrasileiro Gilson Silveira fala como essa alquimia está ocorrendo na Itália.

Torino, 01 fevereiro 2008 - A fusão dos povos imigrantes a partir da música jáestá começando na Itália. Os sons multiculturais que surgem conseguem agitarmesas regadas a pão carasau e pasta alho, óleo e peperoncino. Foi bem nesseclima que batemos um papo com Gilson Silveira, 45, um dos percussionistasbrasileiros mais conhecidos na Europa. Ele tem participações em cerca de 100cds, assina o disco solo “Mala e Cuia”, que exalta sua raiz campesina, e“Saci”, sua segunda produção individual, onde apresenta 10 temas de estilosdiversos, do samba aos ritmos mais próximos do nordeste brasileiro como oCongado.

Há 20 anos morando na Itália,Gilson fala sobre a música que funciona como termômetro da multiculturalizaçãono Velho Continente, em teoria, um processo fácil porque se trataria somente damesclagem de culturas ocidentais.  Mas, afirma opercussionista, não é tão simples assim porque o italiano, como qualquer outroeuropeu, é tão orgulhoso de sua nacionalidade quanto um japonês, porexemplo.  Ele explica que, nas duasúltimas décadas, a sensibilidade dos nacionais expandiu para além dosesteriótipos de Carmem Miranda e dos clássicos como Tristeza e Aquarela doBrasil. Em parte, devido a presença dos brasileiros no país e ao aumentoturístico de italianos para outros continentes.

Agora Notícias (AN): Você fala de uma fusão cultural na Europaquando o Brasil é citado como exemplo de integração e multiculturalidade. Nasua opinião,  lá esse processo estámeio parado enquanto aqui há uma maior vivacidade?

Gilson: Não. NoBrasil essa fusão já está praticamente concluída. Várias etnias, culturas,estão inseridas no tecido social brasileiro.  O exemplo de que tudo está fundido é o fato que temos ocafuzo, o mulato, o branco, o mameluco... É possível encontrar traços árabes,africanos e outros dentro da nossa música mas não dá para perceber se eles sãode Benin ou da Costa do Marfim. Aqui,  a diversidade éidentificável. Os imigrantes ainda mantém dentro de si suas culturas intactas.Milhões de estrangeiros que vivem aqui estão  trazendo a música, a comida, o jeito de ser, a crença...

AN: Então, pelo fato que a multiculturalidadeainda tem que ser construída é mais criativa?

Gilson: -  Não é mais criativa, mas é um momentoque temos muito material para absorver e para recolher. Tive oportunidade detrabalhar com árabes por dois anos e meio, fazendo música árabe-andaluza, e commuitos grupos africanos, portugueses, espanhóis, franceses e americanos.Algumas vezes eles pediam ritmosespecíficos e outras davam toda liberdade para fazer o que eu queria.  Integrei um grupo denominado de ZiriÁrabe, composto por um brasileiro, um marroquino, um libanês, umpalestino,  um italiano, umespanhol e duas bailarinas, sendo uma da Tunísia e outra da Espanha. Eu tocavaconga, caxixi, zabumba e pandeiro. Nunca tive que aprender nenhum instrumentoou ritmo especiais. O objetivo era que cada um introduzisse ali sua cultura.

AN: Música como indício da integração dos povos?

Gilson: Aindaexistem muitos problemas culturais, raciais e conflitos. Vai levar muito tempopara que eles resolvam mas a expectativa é que se possa encontrar a grandebeleza nas diferenças sem que o asiático, o africano, o brasileiro necessitemvirar um europeu. Acredito que daqui umas duas gerações, meu filho ou os filhosdos meus filhos estarão produzindo uma música que é realmente internacional, nosentido que dentro dela terá várias células: a africana, a asiática, a européiaetc... Embora ainda sejam muito evidentes os elementos dessas diversasculturas, a música produzida na França já mostra essa fusão de ritmos própriosdaquele país com os do Mediterrâneo e do norte da África. Hoje, têm muitositalianos fazendo Bossa e vai chegar um momento em que vamos ouvir falar desamba europeu. Isso é inevitável porque só na Itália existem 22 grupos depercussão que trabalham em cima da música brasileira. Eles se inspiram na nossacultura para fazer blocos de até 50 pessoas que tocam nas ruas e palcos.

AN: Inclusive no samba, um ritmo em que,teoricamente, a ginga brasileira é fundamental?

Gilson: Mesmoque aprendam de um brasileiro, o forte acento italiano sempre fica.  Vai demorar um tempo para que elesachem aquele aspecto da identidade, da coisa redonda, circular e rotatória queo samba tem que dar. Ainda sai um pouco quadrado. Quando conseguirem reproduzirtodas as nuances do ritmo, começarão a colocar também personalidade própria,porque não pensam,  caminham, amam,comem como a gente. Já vi grupos japoneses tocando samba super bem, mas aliexiste a perfeita disciplina nipônica. Venderam a alma para o diabo brasileiroe isso, de uma certa forma, é uma pena.

AN: Então o conflito de culturas, uma batendo contra aoutra, necessariamente não é um valor negativo?

Gilson:  Acho que o negócio é integrar cominteligência. Integração combinada em cima de uma mesa nunca vai funcionarporque será sempre artificial. Agora, é diferente quando ela acontecenaturalmente. Conflito pode ser perigoso. Quando um marroquino olha para umromeno discriminando, não quer nem saber da música, da literatura ou da comidadele.  Acredito que a solução  depende do governo e da disponibilidadede cada pessoa entender que ninguém é o máximo.

AN: Vinte anos atrás, quando você chegou, amúsica brasileira já fazia sucesso na Itália?

Gilson:  Já, mas os estereótipos: a herança deCarmen Miranda, mesmo que ela fosse só um fantasma no nosso panorama musical,além de Tom Jobim, Toquinho e Vinícius de Moraes. Fui o primeiro percussionista brasileiro a instalar em Milão.Na época, eles pediam tanto Garota de Ipanema, Tristeza e Aquarela do Brasilque hoje não  agüento mais tocar.Esse era o referencial e, em relação ao que se tem atualmente, ainda bem queera esse! Hoje italiano viaja mais e sua cultura aumentou muito, não só emrelação ao Brasil como também a outros países estrangeiros. Está mudando seugosto musical, em alguns casos para melhor e em outros para pior.

AN: Seja no trabalho Mala e Cuia quanto noSaci,  o regionalismo estáfortemente presente. É a saudade do imigrante?

Gilson: Minhamusicalidade parte das minhas raízes campesinas. É claro que pasteurizadas, modificadas ou plastificadas.Aquela raiz que a gente traz do Brasil fica sempre, sobretudo para umpercussionista que trabalha com um material ainda mais arqueológico. É como ocartunista, que pode até assistir desenho animado japonês, mas ele sempre vaivoltar às formas dos seus antigos materiais. É aí que vai estar seu grande amore onde ele vai se inspirar para tanta coisa. Um percussionista vive disso. Eununca me preocupei em evidenciar o fato que sou brasileiro porque sempre sereium na minha musicalidade. Negar isso seria perder a minha identidade completae, depois,  é útil para trabalharna Europa. A grande vantagem de morar aqui hoje se deve a essa diversidadeétnica.

AN: Então Saci é uma evolução do Mala e Cuia,com uma incursão arqueológica mais profunda de recuperação do ritmos regionaisdo Brasil para aplicá-los dentro de uma música mais internacional? E por quê otítulo Saci?

Gilson: O novoCD traz 10 temas em estilos diversos, que parte do Samba passando pelos ritmosmais típicos do nordeste do Brasil como o Congado e outros sons que são frutosde fusões. Para a realização desse trabalho contei com o suporte de amigos degrande competência e talento, Simon Papa, Federico Marchesano e, particularmente,Roberto Taufic. Sem ele, creio que o resultado seria bem diferente. Já o títuloSaci é uma homenagem a todos aqueles que conseguiram conservar a criança dentrode si e por isso possuem a capacidade de levar a vida brincando num mundo cadavez mais sério e difícil. E Saci, o menino negro que usa chapéu vermelho e fumacachimbo tão expressivo do nosso folclore, tem esse poder mágico. Embora emalgumas regiões, ele seja considerado um ser maligno, no geral é visto como umpersonagem alegre e cheio de ironia. (Célia Takada)

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Comentários (1)
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1. 20-12-2008 23:23
 
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